Sérgio girou a chave nova na porta do escritório. O lugar ainda cheirava a tinta fresca e poeira de obra. Ele deixou a chave em cima da mesa, ao lado da colher de pedreiro velha que carregava desde o primeiro serviço. As filhas ainda não sabiam que a empresa já tinha nome registrado.
O primeiro passo no papel
Ele sentou na única cadeira que havia. As meninas estavam na escola. A casa nova ainda parecia estranha, maior que o apartamento antigo, mas sem os móveis que Tati escolhia por impulso. Sérgio abriu o caderno onde anotava os números. A construtora estava no nome dele. Nada de sócio, nada de dívida escondida. Só o que ele conseguia construir com as próprias mãos.
Roberta apareceu na porta aberta. Trazia uma pasta debaixo do braço. Eu ainda não sei se aceito, ela disse baixo. Sérgio entendeu sem precisar perguntar. O que estava entre eles já não era só trabalho. Ela evitava ficar sozinha com ele por muito tempo.
A garantia que faltava
O primeiro contrato grande chegou no dia seguinte. O cliente queria uma obra de três casas em um loteamento novo. O valor era bom, mas pediam uma garantia financeira. Sérgio ligou para o banco. O atendente pediu o CPF e ficou em silêncio. As dívidas antigas ainda estavam lá, feitas no nome dele por Tati. O limite não aparecia.
Ele desligou e ficou olhando para a colher de pedreiro. O passado quase levou meu nome; agora esse mesmo nome vai estar na placa da minha empresa. A frase saiu em voz baixa, só para ele ouvir. Dirceu ligou uma hora depois. Tinha falado com o cliente, garantiu com a palavra dele. O contrato foi assinado no fim da tarde.
Agora é com você, Sérgio. Não deixa escapar.
A mudança que chegou
Três semanas depois, o caminhão parou em frente à casa nova. As meninas escolheram os quartos. Bia queria a janela que dava para o quintal. Lara pediu para pintar a parede de azul claro. Sérgio carregou as caixas sem reclamar do cansaço. Pela primeira vez, a casa parecia deles de verdade.
Roberta aceitou o cargo de engenheira da construtora no mesmo dia. Disse que ia devagar, sem misturar as coisas. Sérgio concordou. O que eles sentiam podia esperar. O que importava era o que estava sendo construído agora.
No fim da semana, o nome da empresa já circulava entre antigos conhecidos. Alguém comentou com Tati no salão. Ela parou de olhar o espelho e pediu o número do ex-marido. A notícia tinha chegado até ela.
