Arnaldo pediu que Elisa fosse até os fundos do depósito ainda de manhã. O lugar cheirava a papel velho e umidade. Davi estava ali também, quieto no canto, como quem espera que algo ruim aconteça. O que ela descobriu naquela tarde não era só sobre o passado da mãe.
A foto empoeirada
Arnaldo limpou a mesa com a manga da camisa e colocou uma fotografia velha em cima. Duas moças jovens sorriam, abraçadas. Elisa reconheceu a mãe de imediato. A outra mulher parecia mais velha, bem vestida. Por que ele guardava isso?
— Sua mãe trabalhou na casa dos Alcântara por quase dois anos — disse Arnaldo. A voz dele saía rouca. — Eu via ela saindo pela porta dos fundos quando ia entregar mercadoria.
Elisa pegou a foto. Os dedos dela tremiam um pouco. Davi deu um passo à frente, mas parou. Ele não queria ouvir o que vinha depois, porém não conseguia ir embora.
O que Arnaldo guardava há décadas
Arnaldo respirou fundo. Contou que a mãe de Elisa limpava, cozinhava e cuidava da casa. Augusto Alcântara, o dono, começou a prestar atenção nela. Não foi amor. Foi só uma coisa que ele escondia da esposa. Quando a gravidez apareceu, mandaram a mãe de Elisa embora com um pouco de dinheiro e a promessa de que ninguém saberia.
— Você passou a vida achando que não tinha nada, Elisa — Arnaldo falou devagar —, mas nasceu no meio da família que sempre olhou você de cima.
Ela é filha de Augusto Alcântara.
O silêncio ficou pesado. Davi encostou na parede como se precisasse de apoio. Elisa sentiu o chão sumir por baixo dos pés. Tudo que ela sabia sobre si mesma acabava de mudar em uma frase.
O que isso significa agora
Davi olhou para ela. O rosto dele estava branco. Nenhum dos dois precisava dizer em voz alta. Se eram meio-irmãos, qualquer sentimento que tivesse crescido entre eles tinha que acabar ali mesmo. Elisa guardou a foto na bolsa sem pedir licença. Arnaldo não tentou impedir.
Ela saiu do depósito devagar. O sol batia forte na rua, mas ela mal sentia. Davi ficou para trás, conversando baixo com Arnaldo. Nos últimos dias, os dois tinham se aproximado demais. Agora sabiam por quê isso nunca poderia ir além de uma conversa de trabalho.
Elisa pensou na casa vazia que deixara para trás e no que ainda restava resolver com o prêmio. A revelação não mudava o fato de que ela precisava sobreviver, mas mudava tudo sobre quem ela era. Davi saiu do depósito minutos depois. Ele sabia que precisava falar com a família antes que a notícia corresse.
