Antonia chegou cedo na Casa de Saúde Vilar, o envelope com a pulseira apertado na mão. O mármore branco da recepção brilhava sob a luz fria, e ela sentiu o chão escorregar sob os chinelos gastos. O que ela ainda não sabia era que a pior parte daquele dia estava guardada para o momento em que Celina aparecesse.
Exigindo os registros antigos
Antonia parou no balcão alto e bateu a palma aberta no granito frio. — Eu preciso dos papéis do parto de trinta anos atrás. Meu filho nasceu aqui na noite da tempestade. A atendente piscou, surpresa, e pediu o nome. Antonia repetiu devagar, sem levantar a voz.
Do corredor dos fundos surgiu Celina, passos firmes no salto baixo. Ela parou a poucos metros, olhou a mulher simples à frente do balcão e apertou os lábios. — Que ano mesmo? — perguntou, já sabendo a resposta.
A patroa que fechou a porta
Celina deu dois passos à frente e apontou para a saída. — Gente como você não entra pela porta da frente, quanto mais mexe no meu passado. Ela virou para a segurança que acabara de chegar. — Tirem essa senhora daqui agora. Antonia sentiu o rosto queimar. Não era mendiga, repetiu para si mesma, mas a voz não saiu.
— Eu só quero os registros do meu filho — disse ela, baixa.
Dois seguranças seguraram seus braços sem força, só o suficiente para empurrar. Antonia tropeçou no tapete grosso e foi levada até a porta de vidro. No corredor, um homem de terno escuro saiu de uma sala lateral. Rafael Vilar parou no meio do caminho quando os olhares se cruzaram.
Ela sentiu um aperto inexplicável no peito ao encarar aquele rosto. Os olhos eram os mesmos que via toda noite no espelho quando Dudu dormia pequeno. Não podia ser coincidência, pensou, mas não tinha tempo de explicar. Os seguranças a soltaram do lado de fora e fecharam a porta.
O esbarro que ficou
Rafael ficou parado no corredor, ainda olhando para a porta de vidro. Antonia encostou a mão na vidraça um segundo antes de virar as costas. Ele não entendeu por que aquela mulher pobre o olhou como se o conhecesse desde sempre. Dentro da sala, Celina já fechava o assunto com a atendente, voz baixa e nervosa.
Antonia caminhou até o ponto de ônibus sentindo as pernas moles. No bolso, a pulseira parecia mais pesada. Rafael, do outro lado da porta, voltou para o escritório da mãe e encontrou Celina guardando um arquivo antigo na gaveta. — Mãe, quem era aquela mulher? — perguntou. Celina respondeu rápido demais que era só uma golpista. A resposta saiu seca, sem espaço para mais perguntas.
À tarde, no jardim da mansão, Rafael ficou olhando a foto da família no porta-retrato de prata. Celina desviava do assunto sempre que ele voltava à recepção. Isadora saiu mais cedo para o evento beneficente no centro. No mesmo horário, Dudu chegava ali para entregar um carro consertado. Os dois se esbarraram perto da mesa de doações, e o olhar que trocaram durou um segundo a mais do que devia.
