Semente acordou com o boné do pai em cima da mesa, ao lado da mochila velha que usava pra escola. O morro estava quieto demais depois da briga com Espinho. Ele ainda sentia o peso da corrente que recusou, mas agora precisava pensar em como pagar as contas sem aquele dinheiro fácil. O que ele ainda não sabia era que a conversa que viria mais tarde ia mudar o jeito de ver a saída do morro.
O silêncio dos vizinhos
Quando desceu a viela, as portas se fechavam devagar. Ninguém cumprimentava. A mãe dele, Dona Bananinha, lavava roupa na varanda sem olhar pra rua. Semente carregava a mochila vazia, só pra ter alguma coisa nas mãos. O medo era real: Espinho podia mandar alguém atrás dele a qualquer hora.
Ele parou na padaria da esquina. O dono serviu o café sem conversa. Semente pagou com as últimas notas que tinha guardado. Pensou na Pêssega e no bebê que viria. Como ia conseguir um emprego decente agora?
A saída do morro
Laranjinha apareceu no fim da tarde, nervoso, olhando pros lados. Pediu pra subir. Na sala pequena, ele enrolou um pouco antes de falar. Disse que tinha contado pra Espinho sobre a conversa deles, mas agora queria ajudar. Entregou um papel com nomes e horários que podiam afastar o chefe dos garotos da região.
Morro sem saída é só o nome que deram pra quem nunca mostraram a porta.
Semente guardou o papel sem prometer nada. Laranjinha pediu desculpa de verdade, voz baixa. Disse que tinha medo de perder o pouco que tinha. Os dois ficaram em silêncio um tempo. Depois Semente concordou em usar as informações, mas sem voltar pro jogo.
A mochila pronta
Dona Bananinha entrou no quarto à noite. Viu o boné do marido ao lado da mochila escolar. Falou baixo que sempre soube mais sobre o desaparecimento do pai, mas tinha medo de perder o filho também. Agora via que segurar demais só empurrava ele pro perigo. Aceitou que precisava confiar nas escolhas dele.
Pêssega chegou depois, ainda com a mão no ventre. Disse que ficava, mas só se os dois saíssem do ciclo. Queria um lugar onde o bebê não crescesse olhando pra esquina. Semente assentiu. Colocou o boné dentro da mochila, junto com o papel que Laranjinha trouxe e o formulário do curso profissionalizante que tinha pegado escondido.
Na manhã seguinte ele desceu a viela com a mochila nas costas. Os vizinhos ainda olhavam de lado, mas ele não parou. O curso começava na semana que vem, do outro lado do asfalto. O bebê ia conhecer uma história diferente, pensou. Sem corrente, sem segredo guardado. Só o passo adiante, rua por rua.
