Meses depois, a mansão parecia mais vazia do que antes. Lúcia acordou cedo, como sempre, e encontrou a chave do quarto dos fundos ainda sobre o aparador. Ela a pegou, girou entre os dedos e pensou que talvez fosse hora de usar aquele espaço de outro jeito. O que ela não sabia era que a visita daquela manhã mudaria o que restava da família para sempre.
A chave vira escritório
Lúcia desceu para a cozinha e preparou café. Colocou xícaras extras na mesa, mesmo sabendo que Camila e Davi chegariam mais tarde. O terreno continuava no nome dela, guardado como prometeu. Helena tinha assumido a empresa e tirado o nome de Marcelo de todos os documentos. Davi já havia entregado os papéis às autoridades.
— Mãe, a gente pode usar o quarto dos fundos pra atender gente que precisa de ajuda jurídica — sugeriu Camila, ao chegar com Davi. — Davi vai começar devagar, de graça.
Lúcia assentiu. Guardou a chave no bolso e foi até o fundo da casa. O quarto cheirava a mofo e sabão velho. Ela abriu a janela e pensou que ali daria pra colocar uma mesa simples e duas cadeiras.
Reconstrução sem pressa
Camila e Davi sentaram na varanda. Eles conversavam pouco sobre o passado, preferiam falar do dia seguinte. Davi ainda sentia o peso do que havia escondido no começo, mas Camila não cobrava explicações o tempo todo. Apenas pediu que não mentisse de novo.
Helena ligou naquela manhã. Disse que a empresa estava em ordem e que o terreno de Lúcia não seria tocado. Lúcia agradeceu e desligou. Não queria mais falar de dinheiro.
A chave ficou sobre a mesa nova que Davi trouxe. Lúcia a olhou de vez em quando enquanto varria o chão.
A porta da frente
Por volta das onze, o interfone tocou. Marcelo estava na rua, sem carro, sem terno. Pediu pra entrar. Lúcia desceu devagar até a porta da frente. Não abriu logo. Ficou do outro lado, escutando a voz dele abafada.
— Mãe, eu sei que não mereço. Passei a vida tentando apagar a mulher responsável por tudo o que conquistei — disse ele, baixo. — Mãe não nasceu para entrar pela porta dos fundos da vida de filho nenhum.
Lúcia respirou fundo. Não respondeu nada por alguns segundos. Depois girou a maçaneta e deixou a porta abrir. Marcelo entrou devagar, cabeça baixa. Ela não sorriu, mas também não fechou a porta. Deixou que ele passasse.
Camila observava da escada. Davi ficou quieto na cozinha. Lúcia guardou a chave de novo no bolso e voltou para o café. O dia continuava, agora com Marcelo sentado à mesa como qualquer outro visitante. Ninguém prometeu que tudo ficaria bem. Apenas que a porta ficaria aberta.
