Helena abriu a porta do escritório do pai sem bater, como sempre fazia quando voltava de viagem. A luz da tarde entrava fraca pela janela, e ela parou ao ver a gaveta entreaberta da mesa antiga. Dentro, uma fotografia dobrada ao meio chamava atenção.
A foto rasgada na gaveta
Augusto não estava ali. Helena puxou a imagem com cuidado. Dois homens jovens sorriam em frente a um balcão de restaurante. Um deles era claramente seu pai, mais magro e de cabelo escuro. O outro tinha traços que ela reconheceu de imediato: o queixo quadrado, o olhar direto. Parecia Marcos, só que mais jovem. A foto estava rasgada no meio, como se alguém tivesse tentado separar os dois.
Ela virou a imagem. No verso, uma data de vinte anos atrás e um nome quase apagado: João Almeida. O pai de Marcos. Helena sentiu o peito apertar. Augusto nunca mencionara esse nome.
A chegada de César
César apareceu na porta minutos depois, como se soubesse que ela estava ali. Entrou devagar, fechou a porta e parou atrás dela, olhando por cima do ombro. Ele sempre soube onde me encontrar, pensou Helena.
— Você voltou mais cedo — disse ele, a voz baixa.
— E você continua entrando sem ser chamado.
César sorriu de lado e apontou para a foto. — Isso é novo. Seu pai anda escondendo coisas de novo?
Helena guardou a imagem na bolsa antes que ele pudesse pegar. César deu um passo mais perto. A mão dele tocou o braço dela, leve, como nos tempos em que ninguém sabia. A velha atração voltou rápido, mesmo agora que ela desconfiava dele.
Você não escolheu o Marcos por causa da comida. Você já sabia quem ele era.
Helena virou o rosto. — E você acha que isso me faz confiar mais em você?
A decisão de Helena
César saiu depois de alguns minutos, deixando o ar carregado. Helena ficou sozinha com a foto na bolsa. Augusto tinha colocado Marcos dentro da empresa sem explicar nada. Agora a imagem explicava o porquê, pelo menos em parte. Ela não queria mais esperar respostas.
Helena pegou o telefone e mandou uma mensagem curta para Marcos. Encontro no restaurante amanhã cedo. Só nós dois. Guardou a foto no fundo da bolsa e saiu do escritório sem olhar para trás. O que ela faria com aquela verdade ainda estava por decidir, mas uma coisa já estava clara: não daria mais tempo para o pai esconder o passado.
