Sérgio acordou antes do alarme. A cozinha estava escura, só a lâmpada da pia acesa. Ele abriu a geladeira, tirou os restos do dia anterior e começou a montar a marmita com movimentos automáticos. Do outro lado da casa, Tati dormia sem se mexer. O que ele ainda não sabia era que a conta que encontraria mais tarde mudaria o jeito como via tudo aquilo.
A marmita que ele preparou sozinho
Ele cortou o frango frio, colocou arroz, um pouco de feijão. Fechou a tampa da lancheira e guardou na mochila. Depois foi até o quarto das meninas. As mochilas estavam jogadas no chão. Ele dobrou os uniformes que Tati tinha deixado em cima da cadeira, colocou os cadernos dentro e fechou tudo. Bia ainda roncava baixo. Lara virou de lado, mas não acordou. Sérgio saiu de fininho.
Ele pegou o café que tinha esquentado no micro-ondas e sentou na mesa por dois minutos. O pão estava duro. Ele comeu mesmo assim. Olhou o relógio. Faltavam vinte minutos para o ônibus. Levantou, lavou a xícara e saiu sem fazer barulho.
O envelope entre as contas
Quando voltou no fim da tarde, a sala continuava bagunçada. Tati estava no sofá, mexendo no celular. Ele passou reto, foi até a pilha de correspondências que tinha deixado na mesa de cabeceira. Entre os folhetos de propaganda, encontrou um envelope aberto. A conta de luz estava atrasada havia dois meses. O nome dele estava no topo, mas a assinatura não era a dele.
Sérgio leu o valor duas vezes. Não era pouco. Ele guardou o papel no bolso da calça e foi para a cozinha lavar as mãos. Tati nem levantou a cabeça.
O que ela respondeu
— Essa conta de luz veio atrasada — disse ele, parando na porta da sala.
Tati continuou rolando a tela do celular. — Paga quando der. Sempre dá um jeito.
Ele ficou quieto uns segundos. Depois falou baixo: — Não existe salário que sustente uma casa onde só um adulto virou responsável.
Ela olhou para ele, mas não respondeu. Virou o celular de barriga para baixo e se levantou. Foi até a geladeira, pegou água, bebeu direto da garrafa. Deixou a porta aberta.
Sérgio ficou ali, com a conta ainda no bolso. Ele já desconfiava que algo não batia. Mas só naquele momento entendeu que a desconfiança tinha nome e valor.
