Sérgio parou na porta da sala, o capacete coberto de cimento ainda na mão. A casa cheirava a perfume de Tati e a resto de comida do dia anterior. Ele tinha passado doze horas carregando sacos de argamassa. Tati estava no sofá, pernas cruzadas, olhando o celular. Só mais tarde, quando a cozinha ficou em silêncio, é que ele entenderia o quanto já não aguentava mais.
A sala bagunçada
As meninas estavam no quarto, quietas. Sérgio deixou o capacete na mesa e foi tirar a bota suja. Tati nem levantou os olhos. “Cadê o jantar?”, ela perguntou, a voz baixa e firme. Ele olhou para o relógio. Eram quase oito da noite.
“Eu cheguei agora, Tati. Deixa eu tomar banho primeiro.”
Ela suspirou, como se ele tivesse pedido demais. “As meninas já comeram resto. Eu não vou ficar esperando você o dia todo.”
O que ele ainda carregava
Sérgio foi até a cozinha. A pia estava cheia, o fogão sujo. Ele abriu a geladeira e viu só um pedaço de frango congelado. Começou a descongelar devagar, sentindo as costas doerem. Tati apareceu na porta, ainda impecável.
“Você sabe que eu trabalho também”, ela disse. “Não é só você que cansa.”
Eu volto da obra cansado e ainda chego em casa devendo alguma coisa pra você.
As palavras saíram antes dele pensar. Ficaram no ar, pesadas. Tati cruzou os braços, sem responder. As meninas chamaram do quarto, pedindo água. Ninguém se mexeu.
O silêncio depois
Ele terminou de lavar a louça sozinho. Quando as meninas dormiram, a casa ficou quieta de verdade. Sérgio sentou na cadeira da cozinha e percebeu que não se lembrava da última vez que Tati tinha perguntado se ele estava bem. O cansaço parecia mais fundo agora.
Ele dobrou os panos de prato e guardou os livros das meninas na mochila para o dia seguinte. A lâmpada sobre a pia ficou acesa. Na gaveta, um envelope branco apareceu entre as contas antigas. Ele não abriu ainda. Só guardou no bolso, pensando que precisava checar as finanças antes de dormir. O dia seguinte ia começar cedo de novo, como sempre.
