Marcelo parou na entrada da sala de aula noturna. A carteira de estudante, cheia de riscos antigos, estava vazia no meio da fileira. Ele ainda vestia o uniforme de limpeza urbana. Só mais tarde, naquela mesma noite, ele entenderia por que aquela cadeira importava.
A carteira de estudante
A sala estava quase vazia. Três alunos conversavam baixo no fundo. Lívia arrumava os livros na mesa e levantou a cabeça quando viu Marcelo. Ele hesitou, mão no bolso do macacão sujo.
— Pode sentar, Marcelo. Ninguém vai olhar feio — disse ela baixo.
Ele caminhou até a carteira marcada. Sentou devagar, como se o lugar não fosse dele. Os outros alunos deram uma olhada rápida e voltaram a falar. Marcelo sentiu o cheiro de desinfetante no próprio uniforme.
O que Lívia não deixou ele dizer
Lívia se aproximou depois da chamada. Ficou de pé ao lado da carteira.
— Você veio. Achei que ia desistir — falou ela.
Marcelo olhou para as próprias mãos.
— Só vim porque você insistiu. Não sei se dá certo. Já tenho idade pra isso.
Ela sorriu de leve.
— Idade pra aprender não passa. O resto a gente vê.
Ele balançou a cabeça. Queria dizer que Vanessa tinha sumido de vez, que o coração dele estava fechado. Mas ficou quieto. Lívia pareceu entender sem precisar ouvir.
Você não precisa morrer segurando uma vassoura só porque começou segurando uma.
Marcelo ficou olhando para a frase no caderno por alguns segundos. Não respondeu. Só fechou o caderno devagar.
O que ele já sabia sem diploma
No intervalo, enquanto tomava café na xícara de plástico, Marcelo ouviu dois alunos reclamarem de um síndico que não entendia nada de encanamento. Ele escutou em silêncio. Pensou nos prédios onde já trabalhou, nos problemas que resolvera sozinho, nos fornecedores que conhecia de cor. Sabia mais sobre equipes e manutenção do que muitos que mandavam em condomínio.
Lívia passou por ele e parou.
— Tá pensando em desistir de novo?
— Não. Só pensando que tem coisa que eu já faço melhor do que parece.
Ela assentiu e foi embora. Marcelo ficou ali mais um minuto, olhando para o fundo do copo. Pela primeira vez em muito tempo, a ideia de continuar estudando não parecia tão longe.
Nos últimos minutos de aula, ele pegou o celular e abriu a calculadora. Anotou números de funcionários, de equipamentos, de quanto custaria começar pequeno. Guardou o telefone sem falar com ninguém. Quando saiu, a carteira ficou vazia de novo, mas ele já sabia que voltaria.
