Marcelo fechou a porta da sala dos fundos e ficou olhando o contrato sobre a mesa de plástico. Dois funcionários já estavam combinados, Lívia tinha ajudado com os papéis, e pela primeira vez ele via números que faziam sentido. O que ele ainda não sabia era que aquela assinatura era só o começo de algo maior.
A sala emprestada
Ele chegou cedo, ainda com o cheiro de rua no uniforme. O dono da loja deixou a sala por uma hora, sem cobrar nada. Lívia trouxe os últimos documentos impressos e os colocou em cima da mesa.
— Assina aqui e aqui — ela disse, apontando. — Depois a gente resolve o CNPJ.
Marcelo segurou a caneta por um segundo a mais. Pensou na mãe, nos anos que parou de estudar, no dinheiro que mandava pra Vanessa todo mês. Agora era diferente. Assinou devagar, como quem testa se o chão aguenta.
Vanessa descobre
Vanessa soube pela vizinha que trabalhava na padaria perto da loja. No mesmo dia apareceu na porta, de salto alto, bolsa nova. Entrou sem bater.
— Agora o faxineiro virou empresário? — perguntou, rindo baixo.
Marcelo não levantou a voz. Apenas guardou o contrato na pasta.
— Ainda não. Mas você vai lembrar desse dia quando eu virar.
Ela ficou ali mais um minuto, olhando a sala vazia, depois saiu sem dizer adeus. O som dos saltos sumiu no corredor.
O primeiro cliente
À tarde o telefone tocou. Era o síndico de um condomínio de médio porte na Zona Leste. Tinham visto o anúncio que Marcelo colou na portaria e queriam saber preço e prazo. Lívia ficou do lado, ouvindo em silêncio.
Marcelo anotou tudo num papel. Quando desligou, olhou pra ela.
— Eles querem começar na próxima semana — disse. — Dois prédios, três vezes por semana.
Lívia sorriu, mas não comemorou alto. Só apertou o braço dele uma vez, rápido. Marcelo guardou o papel no bolso da camisa. Pela primeira vez em muito tempo, o dia não terminava com ele contando moedas no ônibus.
