Alva chegou encharcada na casa de Dona Margarida. A chuva ainda batia no telhado de zinco. Na mesa, uma caixa de madeira velha esperava. O que ela ainda não sabia era que a pior parte daquela noite viria depois da tampa levantada.
A caixa que Margarida guardou por anos
Margarida trancou a porta. Alva tirou o casaco molhado e sentou. A caixa era pequena, os cantos gastos pelo tempo. Margarida empurrou para ela sem dizer nada.
Alva ergueu a tampa devagar. Dentro havia uma manta branca, fina, com bordado de pétalas no canto. O mesmo desenho do pingente que ela carregava desde bebê. O tecido cheirava a cedro e guardado.
O que Margarida não contou antes
— Eu sempre soube que um dia você ia perguntar — disse Margarida, a voz baixa. — Mas depois que te expulsaram do castelo, não dava mais pra ficar quieta.
Alva passou os dedos pela manta. O bordado era fino, de quem costura com pressa e medo. Ela já desconfiava que sua vida não começara no campo.
Eu não te dei a vida, Alva, mas naquela noite encontrei a menina que alguém tentou apagar da história.
Margarida parou. Olhou para as mãos. Depois continuou: encontrou a bebê enrolada naquela manta, perto dos muros do castelo, uma noite de vento forte. Ninguém a procurou. Ela pegou a criança e voltou para o campo.
A criada que reconheceu a manta
No dia seguinte, Margarida levou Alva até a antiga criada da rainha, agora morando em uma casa simples nos fundos de uma rua estreita. A mulher olhou a manta por tempo demais. Depois assentiu.
— Eu bordei isso. Era da princesa que nasceu naquele dia. Alguém trocou as bebês. Eu vi a outra criança saindo do castelo.
Alva sentiu o chão firme debaixo dos pés, mas tudo dentro dela se mexeu. Cravo apareceu na porta da velha criada pouco depois, trazendo um papel dobrado. Ele disse que precisava levar aquilo à corte antes que Rubra colocasse a coroa na cabeça. Margarida ficou em silêncio, como quem já aceitou que o segredo não era mais só dela.
