Dolores esperava o ônibus debaixo da chuva fina, com o livro surrado preso contra o peito por baixo do casaco. A mala no chão já estava molhada nas bordas. Rafael apareceu do outro lado da rua, correndo sem guarda-chuva. O que ela ainda não sabia era que aquelas anotações antigas iam mudar o rumo de tudo.
Espera no ponto
A chuva batia no telhado de plástico do ponto. Dolores não queria conversa, só queria chegar em algum lugar seco. Rafael parou ao lado dela e olhou para a mala.
— Eu posso te ajudar com isso — ele disse. — Jurídico, sem custo.
Dolores apertou o livro mais forte. Não respondia. Pensava na porta de serviço que tinha fechado pela última vez e no silêncio dos moradores no hall.
O livro que ninguém leu
Rafael pediu licença e folheou algumas páginas. As anotações eram curtas, datas, horários, nomes de quem entrava e saía. Ele parou em uma linha da noite em que a joia sumiu.
Visita ao apartamento da síndica, 23h40. Nome do visitante riscado, mas a letra era firme.
— A senhora não trouxe lembranças, Dona Dolores — ele falou baixo. — Trouxe provas.
Eu anotei tudo porque ninguém mais lembrava.
Dolores olhou para o chão molhado. Não sabia se era alívio ou medo de mexer naquela ferida.
O que o caderno guardava
Eles sentaram no banco duro do ponto. Rafael apontava horários que batiam com os dias em que Regina transferia dinheiro do fundo. Dolores via o nome de Juliana em duas linhas diferentes, entrada e saída rápida.
Ela já desconfiava que a filha sabia de algo, pensou. Mas nunca tinha dito em voz alta.
A chuva parou devagar. Rafael fechou o caderno com cuidado. Disse que as anotações podiam servir para pedir as imagens da portaria antes que alguém apagasse. Dolores não respondeu de imediato. Só guardou o livro de volta no casaco e olhou para o ônibus que se aproximava.
