O molho de chaves pesado ficou ali, sobre o mármore frio do hall, como se ninguém quisesse tocá-lo. Regina parou na frente de Dolores e repetiu que não havia mais nada a discutir. Dona Odete ficou ao lado, quieta, mas visivelmente nervosa. Só depois, quando a mala já estava pronta, é que o livro apareceu e mudou o rumo daquela noite.
A exigência no hall
Regina apontou para o relógio na parede. “São quase onze. Você tem até meia-noite.” Dolores segurou o molho com força, sentindo o peso de cada chave. Dona Odete deu um passo à frente. “Regina, pelo menos até amanhã de manhã.” A síndica não respondeu, só cruzou os braços. O elevador apitou no fundo do corredor, mas ninguém desceu.
Vinte anos pela porta de serviço
No quarto de serviço, Dolores dobrou as duas blusas que ainda estavam na gaveta. A mala pequena mal fechava. Ela olhou para o armário vazio e repetiu baixinho: “Vinte anos, e eu saio pela porta de serviço.” A voz saiu rouca, sem força para brigar. Lá fora, Regina falava ao telefone com o porteiro, marcando a hora exata da saída. Dolores guardou o uniforme dobrado em cima das roupas. Não chorou. Só fechou a mala devagar.
O livro esquecido na gaveta
Quando já ia fechar a última gaveta, algo bateu na madeira. Dolores puxou o caderno velho de ocorrências, as páginas amareladas e cheias de anotações miúdas. Ela tinha esquecido que o guardara ali, meses antes. Abriu na última página escrita e viu o registro da noite em que o colar sumiu. O nome de Juliana estava anotado ao lado da hora. Por um instante, pensou em rasgar tudo. Guardou o caderno no fundo da mala, entre as meias. Quando saiu, deixou as chaves exatamente onde Regina mandara: sobre o mármore do hall.
