Maurício entrou no café de Moema só para fugir da chuva fina que caía desde o meio-dia. Pediu um expresso e sentou perto da janela, distraído. O que ele ainda não sabia era que aquela tarde guardava respostas que ele procurava há anos.
O reencontro com Helena
Ele mexia no celular quando ouviu o barulho de uma xícara tombando. O café escorreu sobre uma fotografia velha que alguém deixara na mesa ao lado. Maurício olhou para cima e viu Helena. Os anos tinham passado, mas ele reconheceu o jeito dela de ajeitar o cabelo atrás da orelha.
— Helena? — ele falou baixo, quase sem voz.
Ela congelou por um segundo, depois tentou sorrir como se fosse apenas um encontro casual.
— Maurício. Quanto tempo.
Eles ficaram em silêncio enquanto a garçonete limpava a mesa. A foto era deles dois, tirada num aniversário qualquer, com as bordas já amareladas. Helena guardou o papel molhado na bolsa sem explicar.
Por que você sumiu
Maurício puxou uma cadeira e sentou sem esperar convite. Perguntou direto, como quem não tem mais tempo a perder. Helena respondeu que a vida mudou, que as coisas não deram certo. Ele insistiu. Queria saber o motivo de ela ter desaparecido sem uma palavra.
— Eu não fui embora porque deixei de te amar, Maurício. Alguém fez questão de me expulsar da sua vida. — Helena baixou o olhar para as próprias mãos.
Ele sentiu o peito apertar. Perguntou quem. Helena balançou a cabeça, como se a resposta ainda doesse.
Vanessa apareceu na porta do café pouco depois. Veio de salto alto, bolsa no braço, olhando o lugar como quem avalia se vale a pena entrar. Parou quando viu os dois juntos. Reconheceu o jeito como Maurício olhava para Helena. Não era olhar de amigo.
A carta guardada
Vanessa se aproximou devagar. Cumprimentou Helena com educação fria. Maurício apresentou a ex como uma velha amiga. A conversa ficou curta. Vanessa disse que precisava voltar para o carro e que o trânsito estava piorando.
Helena esperou Vanessa sair. Abriu a bolsa e tirou um envelope amarelado, sem selo, com o nome de Maurício escrito na frente. Entregou para ele.
— Sua mãe escreveu isso na época. Eu nunca entreguei. Acho que você precisa ler agora.
Maurício segurou o envelope. Não abriu. Pensou na mãe, na forma como ela sempre decidira tudo. Helena pediu que ele não fizesse nada precipitado. Disse que algumas coisas doem menos quando ficam guardadas. Ele guardou a carta no bolso do paletó e saiu do café. No caminho até o carro, sob a chuva que voltava forte, ele já imaginava a conversa que teria com Dona Lúcia. Helena ficou para trás, olhando o vidro embaçado. Vanessa, no banco do passageiro, percebeu que o encontro não tinha sido só coincidência.
