Giabê entrou no banheiro do Colégio Hortifruti com a mochila apertada contra o peito. Os azulejos estavam frios e o espelho refletia um quiabo de dezesseis anos que tremia nas mãos. Ele precisava usar a insulina rápido, antes que alguém notasse. Só no fim daquela tarde ele descobriria que Pimentudo já estava prestando atenção nas idas frequentes dele ali.
A rotina no banheiro
Giabê trancou a porta e abriu a mochila devagar. A caneta de insulina saiu em silêncio. Ele levantou a camisa só o suficiente, aplicou a dose e guardou tudo de novo em menos de um minuto. O reflexo no espelho mostrava olhos cansados. Ele sabia que ninguém podia descobrir, especialmente ali no colégio onde todo mundo comentava qualquer diferença.
Ele lavou as mãos duas vezes, só para ter certeza de que não restava cheiro de álcool. A porta do banheiro rangeu lá fora. Giabê parou. Esperou. Quando saiu, o corredor estava vazio de novo.
Quando Pimentudo apareceu
Pimentudo saiu de trás da pilastra com um sorriso largo. Ele era vermelho, grande e sempre parecia estar à beira de uma piada. “Outra vez no banheiro, Giabê? Tá com problema de estômago ou tá escondendo alguma coisa?” Giabê apertou a alça da mochila. “Só bebi água demais.” Pimentudo riu baixo, mas não se afastou. “Tá bom. Mas eu vi você saindo daqui três vezes essa semana. Todo mundo nota.”
Giabê olhou para o chão. “É normal. Qualquer um vai ao banheiro.” Ele passou pelo pimentão e seguiu reto, sem correr. O coração batia forte, mas ele não ia dar a Pimentudo o gosto de ver medo.
A decisão que Pimentudo tomou
Pimentudo ficou parado no corredor depois que Giabê virou a esquina. Ele encostou o ombro na parede e ficou pensando. O quiabo andava diferente, saía da sala na hora errada e voltava com a cara de quem carregava peso. Nada de grave, mas o suficiente para virar assunto. Pimentudo decidiu que ia descobrir sozinho. Começaria seguindo Giabê no intervalo da tarde. Se fosse só um segredo bobo, tudo bem. Se fosse algo maior, ele faria todo mundo saber.
Giabê chegou na sala de aula e sentou na última carteira. A mochila ficou no colo. Ele olhou para o pátio ensolarado lá fora e pensou em Tatá. Quase sorriu, mas o olhar de Pimentudo ainda estava na cabeça dele. Ele guardou o segredo mais fundo e abriu o caderno.
