O que Isadora ainda não sabia era que o beijo que ela tanto desejava carregava um peso que ninguém na festa imaginava. A chuva caía forte no terraço, molhando o vidro das portas e fazendo as luzes piscarem. Dudu segurava uma taça de champanhe, os olhos fixos nela.
A festa sob a chuva
A multidão se apertava dentro do salão, mas Isadora fugira para o ar livre. O vestido colava no corpo por causa da água fina que entrava pelo telhado aberto. Dudu a seguiu sem pensar muito, como sempre fazia.
Celina observava de longe, o rosto duro atrás da janela. Ela apertava o celular, pronta para chamar a filha de volta a qualquer momento.
O encontro no terraço
— Você não devia estar aqui — disse Isadora, baixinho. Dudu deu um passo mais perto. O cheiro de terra molhada misturava com o perfume dela.
Ela já sentia o coração bater diferente desde o esbarrão na festa anterior. Dudu também. Nenhum dos dois falava do que sentia, mas os olhares diziam tudo.
A taça escorregou dos dedos dele e se espatifou no chão de pedra. O som seco cortou o silêncio.
O beijo que não podia existir
Isadora se aproximou primeiro. Os lábios se encontraram devagar, depois com fome. Dudu segurou a cintura dela, sentindo o frio da chuva na pele quente. Por um instante o mundo sumiu.
Neide passava pelo corredor abaixo e viu os dois. Empalideceu. Reconheceu o rosto de Dudu, a forma como ele se mexia, tudo que lembrava a noite do nascimento. Se esse amor for o que eu temo, é o pior dos pecados dessa família, pensou ela.
Celina desceu as escadas apressada, chamando o nome da filha. O beijo durou só mais um segundo antes que os dois se separassem, ofegantes.
Neide apertou a bolsa contra o peito. A decisão que guardava havia trinta anos agora apertava o peito dela também. Ela não podia deixar aquilo continuar. Precisava falar com alguém antes que a verdade explodisse sozinha. A capela do hospital guardava os registros antigos. Talvez ali encontrasse coragem para abrir o que Celina tanto queria manter fechado.
