Madalena fechou a gaveta rápido quando ouviu passos no corredor. A cozinha já estava vazia, só o cheiro de gordura fria no ar. Ela sabia que Larissa ainda não tinha entendido tudo, mas a foto não deixava espaço pra dúvida.
A foto dobrada
Depois do expediente, Madalena ficou sozinha na cozinha. Abriu a gaveta de baixo da bancada de inox e tirou a fotografia velha. Ela e Abacácio, mais novos, num bar qualquer do centro. A imagem estava amassada nas bordas, como se alguém tivesse guardado e esquecido de propósito.
Larissa apareceu na porta sem bater. Madalena guardou a foto no bolso do avental antes de virar.
— Você conhecia ele — disse Larissa. A voz saiu baixa, quase cansada.
Madalena secou as mãos no pano de prato. Não respondeu de imediato.
O que Banâncio guardou
Banâncio entrou carregando uma caixa de talheres. Parou no meio da cozinha quando viu as duas. Olhou pro chão primeiro, depois pro rosto de Larissa.
— Eu já vi ele fazer igual — falou, sem rodeio. — Num restaurante em Botafogo. Colocou uma barata no prato, fez escândalo, pediu dinheiro pra não falar com a imprensa. Todo mundo pagou quieto. Eu fiquei quieto também.
Larissa encostou na pia. O barulho da água pingando pareceu alto de repente.
Eu conheço esse homem desde antes de ele aprender a mentir tão bem.
Madalena disse a frase olhando direto pra Larissa. Depois disso, ninguém falou por um minuto inteiro.
O que Larissa decidiu
Larissa pegou o celular na bancada. Abriu o caderno de anotações que guardava no bolso do avental. Começou a anotar nomes de restaurantes que já tinham tido reclamações parecidas nos últimos meses.
— Vou ligar pra eles — disse. — Quero saber se pagaram também.
Madalena ficou parada, a mão ainda no bolso com a foto. Banâncio limpou a bancada mesmo sem precisar. Larissa saiu da cozinha com o celular já na orelha. Do lado de fora, a chuva fina começava a cair no pátio do casarão. Madalena pensou que, se Larissa encontrasse os outros donos, a conversa sobre a foto ia voltar mais cedo ou mais tarde.
