Cléo entrou em casa com o cheiro do esmalte ainda preso nas unhas. A foto da mãe estava em cima da cômoda, ao lado da carteira de trabalho amarelada. Ela não conseguia tirar da cabeça o que tinha ouvido no telefone de Vivian. Só depois, quando a gaveta foi aberta, é que as peças começaram a se encaixar de verdade.
A pergunta que Iraci evitava
Iraci estava na cozinha, lavando a louça devagar. Cléo parou na porta e ficou olhando a mãe por um tempo. Depois perguntou direto: em que casa você trabalhava quando aconteceu tudo aquilo?
Iraci secou as mãos no pano de prato sem virar o rosto. “Não é hora de ficar remexendo isso, Cléo. Já passou.”
Cléo se aproximou da mesa. “Eu só quero saber o nome. Você nunca contou.”
A gaveta que guardava mais que papéis
Iraci foi para o quarto e Cléo ficou sozinha no corredor. A gaveta da cômoda velha estava um pouco aberta. Dentro tinha recibos antigos, uma carta dobrada e um recorte de jornal amarelado. O sobrenome Castelo aparecia em letras pequenas no meio da matéria.
Cléo pegou o papel com cuidado. Lia o nome de Vivian e uma data que batia com o ano em que a mãe tinha sido acusada. O coração dela bateu mais forte, mas ela não falou nada ainda.
O que Iraci finalmente disse
Quando a mãe voltou, Cléo mostrou o recorte. Iraci olhou o papel e ficou em silêncio por quase um minuto. Depois sentou na beira da cama.
“Eu nunca roubei nada daquela casa, mas ninguém quis ouvir uma empregada.”
Cléo ficou parada, segurando o jornal. Iraci não chorou, só olhou para o chão como quem já tinha repetido aquela frase muitas vezes na cabeça. A filha pensou na mulher que humilhava ela toda semana no condomínio e sentiu o estômago apertar.
Ela guardou o recorte de volta, mas já não conseguia parar de pensar que o nome dentro da gaveta explicava muito mais do que a mãe nunca quis contar. No fim daquela noite, Cléo guardou o recorte na bolsa e decidiu que precisava falar com alguém que conhecesse as entradas do prédio naquela época.
