Cléo terminou de passar o esmalte nas unhas de Vivian e guardou os frascos sem pressa. A varanda estava quente demais para aquela hora, o ar parado. Ela já tinha percebido que Vivian fazia perguntas estranhas sobre o que ela escutava nos outros apartamentos. O que Cléo ainda não sabia era que a pior parte daquela noite nem tinha começado.
A taça rachada na borda
Vivian segurou a taça de espumante com dois dedos e girou devagar. A rachadura na borda era pequena, quase invisível, mas Cléo viu. O líquido borbulhava devagar. Vivian olhou para a cidade lá embaixo e falou baixo.
“Você faz muitas perguntas, Cléo. As meninas que trabalham aqui costumam ser mais quietas.”
Cléo secou o excesso de esmalte da cutícula da cliente com um algodão. Não respondeu. O silêncio pareceu durar mais do que o normal.
A mão que aperta
Vivian largou a taça e estendeu a mão. Pegou o pulso de Cléo com força, os dedos apertando a pele fina. Cléo sentiu o anel de ouro pressionando.
“Você anda ouvindo o que não devia, e gente esperta sabe quando deve esquecer.”
Cléo assentiu devagar. Não tirou o braço. Pensou na mãe, no colar que Iraci nunca tinha visto, na joia que Sandra ajudou a vender. A dor no pulso aumentou um pouco mais antes de Vivian soltar.
“Pode ir. E não conte pra ninguém que conversamos.”
Cléo desceu as escadas do prédio com as pernas moles. O elevador parecia demorar demais. Quando chegou no térreo, o porteiro nem levantou os olhos do celular. Ela respirou fundo e saiu para a calçada.
O encontro que ela não esperava
Rafael estava encostado no carro, o paletó jogado no banco de trás. Ele viu Cléo sair e se aproximou devagar, as mãos nos bolsos.
“Tudo bem? Você está pálida.”
Cléo parou. Queria dizer que estava, mas as palavras não saíram. Rafael olhou para cima, para a varanda iluminada do apartamento da mãe, e depois de volta para ela.
“Se minha mãe te ameaçou, me conta. Eu sei como ela é quando fica desconfiada.”
Ela sentiu o coração bater mais forte. Não era a primeira vez que Rafael parava para falar com ela, mas era a primeira vez que ele parecia realmente preocupado. Cléo pensou em Téo, nos registros que ele guardava, e em quanto ainda faltava pra provar tudo. Ao mesmo tempo, notou que Rafael não soltava o olhar dela. A rua estava quieta. Por um segundo, o medo que Vivian tinha colocado no peito pareceu menor.
