Vanessa parou diante da porta da casa nova de Marcelo. Segurava a chave antiga da antiga residência na mão esquerda. Meses haviam se passado desde a gala, e o vento da Zona Leste trazia um cheiro de terra molhada. O que ela ainda não sabia era que a conversa que planejava não mudaria o que já estava decidido.
A chave que não abria mais
Marcelo abriu a porta devagar. Usava uma camisa limpa de trabalho, o nome da pequena empresa bordado no bolso. Olhou para a chave na mão dela e não disse nada por alguns segundos.
— Eu guardei isso desde o começo — falou Vanessa. — Pensei que talvez…
— Pensei que talvez o quê? — ele cortou, voz baixa.
Ela olhou para o chão. O sapato dela era caro, o salto fino. Não combinava com a calçada simples em frente à casa.
O que Henrique deixou claro
Vanessa explicou que Henrique tinha terminado tudo depois da briga pública. Contou que ele expôs cada mentira dela na frente de gente conhecida. Disse que não tinha mais para onde ir. Queria voltar para o que era de verdade.
Marcelo ficou quieto. Lembrou do dia em que ela passou de carro e fingiu não ver ele varrendo a rua debaixo de chuva. Lembrou do dinheiro que mandava e que nunca chegava inteiro.
Você quer voltar para qual casa, Vanessa? Aquela que tinha vergonha de dizer que era sua?
A frase saiu sem raiva. Saiu como quem já tinha respondido a mesma pergunta várias vezes sozinho. Vanessa abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
A ligação que Lívia ainda esperava
Marcelo fechou a porta devagar depois que Vanessa foi embora. Pegou o celular e ligou para Lívia. Ela atendeu no segundo toque. Falou que havia adiado a mudança de cidade, mas que a proposta de trabalho continuava de pé. Disse que não queria que ele a segurasse se aquilo não fosse o que ele realmente queria.
— Eu não vou te pedir para ficar — respondeu Marcelo. — Mas também não quero que vá sem saber que eu escolho você todos os dias que ainda temos.
Ela ficou em silêncio do outro lado da linha. Depois riu baixo, um riso cansado e aliviado. Combinaram de se encontrar na escola naquela noite, como sempre.
Marcelo guardou a chave velha no fundo de uma gaveta. Não guardou rancor. Apenas fechou a porta da casa antiga para sempre e saiu para encontrar Lívia. Os dois seguiriam em frente, cada um com seus planos, mas lado a lado.
