Beladona fechou a porta do quarto real com cuidado, mas o vento da tempestade batia forte contra as janelas do castelo. Os dois berços ficavam lado a lado, iguais, com as bebês dormindo tranquilas. Só depois, quando a fita branca apareceu cortada no chão, é que a criada entendeu que aquela noite não seria esquecida.
A fita branca no chão
A chuva caía há horas sem parar. Beladona acendeu uma vela baixa para não chamar atenção. Olhou a herdeira verdadeira no berço da esquerda e a outra criança, trazida do campo, no da direita. A criada, que limpava o corredor, parou ao ver a conselheira mexendo nos lençóis.
— O que a senhora está fazendo aqui tão tarde? — sussurrou a moça.
Beladona não respondeu de imediato. Pegou a bebê do berço da esquerda e colocou no da direita, depois trocou a outra. A fita branca que marcava a verdadeira herdeira caiu e ficou enrolada no tapete.
Troque as duas antes que a rainha acorde, e ninguém jamais saberá qual delas nasceu para o trono.
A criada deu um passo à frente, mas parou quando Beladona a olhou. — Se contar isso para alguém, sua família no campo vai pagar. Entendeu?
O pingente que não some
Vinte e dois anos depois, Dona Margarida lavava louça na casa simples do Campo dos Simples. Alva chegou do castelo ainda com o cheiro de flores no cabelo. O pingente de cristal batia no peito dela a cada passo. Margarida secou as mãos no avental e olhou o objeto mais uma vez.
Ela já desconfiava que o bebê que achou naquela noite de chuva não era qualquer um. O cristal tinha o mesmo formato das pedras que viu no castelo quando era jovem. Mas nunca contou. Agora, depois que Alva voltou de lá com a cara fechada, o segredo pesava mais.
— Deixa eu ver esse pingente de perto — pediu Margarida.
Alva tirou do pescoço sem reclamar. Quando a luz bateu no cristal, Margarida sentiu o frio na barriga. Não vai dar para esconder para sempre, pensou. A criada daquela noite ainda vivia, e se Beladona soubesse que Alva estava de volta, tudo podia desmoronar.
Alva guardou o pingente de novo. — Por que você sempre fica assim quando olho ele?
Margarida não respondeu. Apenas virou o rosto para a janela e viu as flores do quintal balançando com o vento que vinha do castelo. A pior parte daquele dia nem tinha começado.
