O sol rastejava devagar pelas montanhas de São Conrado, tingindo de dourado as vidraças da mansão. O ar carregava o cheiro de terra molhada e café queimado na cozinha. Na varanda, a taça de cristal rachada repousava sobre a mesa de ferro, refletindo o rosto de Maria Flor.
Letícia surgiu do corredor interno, passos duros contra o piso de mármore. O vento agitava as cortinas brancas. Nenhuma das duas sorriu.
O amanhecer sem volta
Maria Flor apertou a taça entre os dedos. O vidro rangia levemente. Letícia parou a três passos, olhos vermelhos de noites sem dormir.
— Você não devia ter voltado — disse Letícia, voz baixa e cortante.
Maria Flor ergueu o queixo. O silêncio entre elas pesava mais que qualquer grito.
O nome que não se apaga
Letícia deu um passo à frente. A brisa carregava o perfume caro dela misturado ao sal do mar lá embaixo.
— Eu construí tudo isso. Você era só a empregada que eu deixei viver.
Maria Flor soltou a taça. O objeto girou uma vez sobre a madeira antes de parar.
Você me tirou tudo… mas eu tirei de você até o nome.
Letícia piscou devagar, como se a frase tivesse entrado na pele.
A mão que segura o outro
Júnior apareceu na porta da varanda, camisa amarrotada, olhos inchados. Ele parou entre as duas, corpo tenso.
— Chega — murmurou. — A polícia já está subindo o morro.
Letícia riu, um som seco que não chegou aos olhos. Maria Flor não se mexeu.
O silêncio depois do tiro
Sirenes distantes subiram pela estrada. Letícia recuou um passo, depois outro. A algema brilhou no pulso de um policial que surgiu no jardim.
Maria Flor ficou parada, a taça agora firme em suas mãos. Júnior baixou a cabeça. O sol finalmente rompeu por completo, iluminando o piso manchado de sombras longas.
Letícia foi levada sem olhar para trás. Maria Flor virou o rosto para o mar e respirou fundo. A mansão, pela primeira vez, parecia menor.
A taça rachada continuou sobre a mesa, testemunha muda de tudo que terminava ali. Dona Rosa observava da janela da cozinha, mãos trêmulas sobre o avental. Júnior aproximou-se devagar e parou ao lado de Maria Flor sem tocar nela.
