Larissa fechou a porta do salão principal e viu Abacácio já sentado à mesa central. O restaurante estava vazio, as cadeiras viradas sobre as mesas. Ela não esperava que ele pedisse para falar a sós. O que ela ainda não sabia era que aquela conversa mudaria o jeito como ela via cada passo que tinha dado até ali.
A dívida de Larissa na mesa
Abacácio empurrou um envelope grosso para o meio da mesa. O papel estava amassado nas bordas, como se tivesse sido guardado por muito tempo. Larissa sentou devagar, sem tirar os olhos dele. Ele sorriu de lado, aquele jeito que ela já reconhecia.
— Abre. Não vai doer tanto quanto você imagina.
Ela rasgou o envelope. Dentro havia cópias de contratos antigos, comprovantes de transferência e uma planilha com números que ela reconhecia demais. Sua dívida. A que ela tinha tentado pagar em silêncio nos últimos anos.
O que Abacácio comprou
— Eu não precisei inventar nada — ele disse. — Só paguei um intermediário que já tinha seu nome na lista. Agora a parte que te pertence está comigo. Não é mais o restaurante que me deve. É você.
Larissa sentiu o ar ficar mais pesado. Ela pensou em Banâncio, no beijo que tinham dado dois dias antes, na forma como ele tinha olhado para ela na saída. Abacácio parecia saber de tudo sem precisar dizer o nome.
— Se você continuar mexendo nas câmeras e nos outros restaurantes, eu cobro tudo de uma vez. Sua casa, seu nome no cartório, o pouco que ainda sobra da sua mãe. Eu sei onde está cada documento.
Ela fechou o envelope devagar. Ele não ia conseguir tudo de graça.
O acordo que ela fingiu aceitar
— Eu paro — Larissa respondeu, a voz baixa. — Não falo mais com ninguém sobre as gravações. Nem com a Madalena, nem com o Banâncio. Você ganha o que quer.
Abacácio recostou na cadeira, satisfeito. Ele não viu a forma como os dedos dela apertavam a borda da mesa. Larissa levantou, pegou o envelope e guardou no bolso do casaco. Quando saiu, Banâncio estava na cozinha, arrumando talheres. Ela passou por ele sem parar. Ele chamou baixinho, mas ela não virou.
No escritório, sozinha, Larissa abriu o envelope de novo. Desta vez olhou os números com calma. Abacácio achava que tinha fechado a porta. Ela já estava pensando em qual mesa reservaria para ele na próxima semana.
