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Morro Sem Saída — Capítulo 1: A esquina chama primeiro

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Semente via o movimento da esquina e apertava o boné do pai. Dona Bananinha voltou exausta, mas a oferta de Espinho já tinha chegado e mudaria o que ele sempre tentou evitar.


Semente apertou o boné gasto do pai enquanto via os meninos correndo na viela. A esquina já estava cheia de vozes baixas e olhares que não piscavam. Dona Bananinha ainda não tinha chegado, e ele sabia que a exaustão dela só pioraria se visse aquilo. O que ele ainda não sabia era que aceitar um favor pequeno mudaria a distância que sempre tentou manter.

O boné na viela

O sol batia nas lajes e fazia o morro parecer mais apertado. Semente parou no canto de sempre, vendo Espinho distribuir pacotes pequenos para os mais velhos. Ninguém falava alto. Os carros lá embaixo pareciam de outro mundo. Ele pensou na mãe, nos dias em que ela chegava com as mãos inchadas de tanto limpar.

A volta da mãe

Dona Bananinha apareceu suada, a bolsa pendurada no ombro. Ela olhou direto para a esquina e depois para o filho. Não fica aí parado, disse baixo, quase rouca. Semente seguiu ela até em casa sem responder. A porta rangeu como sempre. Ela largou a bolsa e sentou na cadeira de plástico, respirando pesado.

A oferta que chegou

Espinho apareceu na porta minutos depois, dois homens atrás dele. Falou baixo, como quem oferece água para quem tem sede. Disse que um favor pequeno podia ajudar a pagar a conta de luz. Semente olhou para o chão. A mãe ficou em pé, mas não conseguiu falar nada forte. Aqui no morro, a fome também escolhe por você, completou Espinho antes de ir embora. O envelope ficou na mesa.

O dinheiro que entrou em casa

Semente pegou o envelope quando a mãe foi tomar banho. Dobrou as notas e guardou no bolso do short. Ele jurou que só era uma vez. Quando Dona Bananinha voltou, o cheiro de comida fria ainda estava na mesa. Ela não perguntou nada, mas o silêncio entre os dois ficou mais grosso que nunca. Semente sentiu o peso no bolso e não conseguiu olhar para o boné do pai pendurado na parede.